Em um cenário onde a sustentabilidade e a redução do desperdício estão cada vez mais em evidência, o reuso de produtos para saúde não permanentes surge como uma prática promissora. Essa abordagem envolve a utilização de dispositivos médicos não invasivos, após passarem por processos de desinfecção e esterilização adequados. No entanto, é essencial entender os riscos e as diretrizes envolvidas nesse processo para garantir a segurança dos pacientes. Neste artigo, exploraremos o que é o reuso de produtos para saúde não permanentes, os riscos associados e quando essa prática é apropriada.
Para iniciar, a primeira coisa que precisamos ressaltar é que o produto reprocessado deve garantir a mesma segurança e desempenho do artigo no primeiro uso. Mas será que é possível? Continue a leitura até o final para descobrir.
O QUE É O REUSO?
O reuso de produtos para saúde não permanentes se refere à prática de esterilizar e preparar novamente itens que foram originalmente projetados para uso único. Essa prática busca estender a vida útil dos produtos e reduzir os custos associados à aquisição de materiais descartáveis.
RISCOS ASSOCIADOS AO REUSO
Existem SIM riscos associados ao reuso de produtos para saúde (PPS) não permanente (de uso único), como por exemplo: Infecção, pirógenos, resíduos tóxicos, insegurança funcional, alteração da integridade física, entre outros.
Atualmente o Brasil, assim como diversos outros países fazem o reuso de produtos não permanentes. O problema é que nem todos os hospitais fazem de forma oficial, dentro do que a norma permite e coerente com os protocolos.
Esse é um assunto controverso, complexo e gera muita discussão mas é muito importante.
ENTENDENDO A NORMA
A legislação vigente sobre o reuso é a RDC 156/2006 e nela existem duas resoluções anexas, que são:
Resolução RE nº 2.605
Resolução RE nº 2.606
A RDC 156 ela aborda a questão do registro dos materiais de uma forma geral e também os aspectos do processamento e do reuso. Veja abaixo um fluxograma que resume as regras do reuso da norma:

Importante: O rótulo do material deve estar em português, que é o rótulo aprovado pela ANVISA e a informação deve ser escrita exatamente “Proibido Reprocessar” pois essa informação só pode conter se for autorizado pela anvisa.
Caso tenha essa informação no rótulo, mesmo que o material não conste na lista negativa, seu processamento é proibido.
Portanto, caso tenha qualquer outra informação diferente da citada acima, como por exemplo: material de uso único, descartar após o uso, é um material que pode submeter um protocolo de validação conforme estabelecido a resolução 2606 (anexa a 156).
Se for possível fazer um protocolo e validar o mesmo, mostrando que ele é seguro para reutilização, pode ser implantado um programa de reuso do material no hospital. Caso o contrário, é proibido reprocessar.
PROTOCOLO DE REUSO
A decisão do reuso deve ser discutida por toda equipe usuária envolvida e para que o protocolo seja seguro e eficaz veja alguns pontos indispensáveis para o seu desenvolvimento:
Avaliação de Dispositivos para Reuso:
Identifique quais dispositivos podem ser reutilizados de acordo com as orientações dos órgãos regulatórios e fabricantes, conforme explicado acima.
Priorize dispositivos simples e de baixo risco para reuso, evitando procedimentos complexos que possam comprometer a esterilização.
Estabeleça Protocolos de Limpeza e Esterilização:
Desenvolva processos de limpeza, desinfecção e esterilização rigorosos para garantir a remoção de resíduos e microrganismos patogênicos.
Valide os protocolos de esterilização por meio de testes que demonstrem a eficácia do processo.
Treinamento e Educação:
Capacite a equipe de enfermagem do CME com treinamento detalhado sobre o processo de reuso, enfatizando as etapas de limpeza, esterilização e armazenamento.
Atualize regularmente a equipe sobre as melhores práticas, novas diretrizes e tecnologias relacionadas ao reuso de dispositivos.
Rastreabilidade e Documentação:
Mantenha registros detalhados de cada dispositivo reutilizado, incluindo informações sobre o paciente, data de reuso, processo de esterilização e validação.
A documentação completa é essencial para rastrear qualquer problema e para atender a auditorias e inspeções regulatórias.
Inspeção Visual e Testes Funcionais:
Realize inspeções visuais detalhadas para garantir que os dispositivos não apresentem danos visíveis após o reuso.
Implemente testes funcionais, quando aplicável, para verificar se os dispositivos ainda estão em perfeitas condições de funcionamento.
Monitoramento Contínuo:
Estabeleça um sistema de monitoramento contínuo para avaliar a eficácia do protocolo de reuso e identificar áreas que precisam de melhorias.
Realize auditorias regulares para garantir que os procedimentos estão sendo seguidos adequadamente.
Descarte Adequado:
Determine um limite máximo de reuso para cada dispositivo, garantindo que os materiais não se tornem excessivamente desgastados.
Estabeleça diretrizes claras para o descarte seguro de dispositivos que não atendam mais aos padrões de segurança após o reuso.
LEMBRE-SE: Todo protocolo de reuso tem sua fragilidade, por mais seriedade técnica que seja criado. Os protocolos não tem validades externas, ou seja, cada hospital precisa ter o seu protocolo de acordo com as suas condições internas.
IMPORTANTE: Mesmo protocolos validados em pesquisas acadêmicas devem ser validados no seu âmbito local.
CONCLUSÃO
Como exploramos neste artigo, os riscos associados ao reprocessamento desses dispositivos não podem ser ignorados. A possibilidade de infecções cruzadas, falhas no processo de esterilização e outros riscos trazem à tona preocupações legítimas quanto à segurança dos pacientes e profissionais de saúde.
No entanto, ao seguir as diretrizes e procedimentos apropriados para criar um protocolo de reuso, é possível minimizar esses riscos e maximizar os benefícios.
E para finalizar, quando optar pelo reuso:
• Respeite a legislação
• Tenha apoio formal da equipe usuária e da alta administração
• Valide com seriedade técnica
• Não utilize o reuso para resolver questões administrativas (como por exemplo, não deu tempo de comprar, a entrega atrasou, etc)
Continue acompanhando, no próximo post falaremos sobre OPME e no final teremos um e-book para sua comodidade.


